Não que eu esteja naquela selva novamente, mas de novo me apareceu aquele ser branco com o corpo meio sujo dos dias e um silêncio na alma. Seus olhos me causaram a mesma quietude interna. O vazio. Foi aí que o conheci. “Estou fugindo dos leões e das outras criaturas”. Criaturas essas das quais eu também fugia.
Ele correu e eu saí correndo atrás. Não era justo, me roubara a paz e tão rápido ia embora. Sem tropeçar, cair, cansar nem desistir, continuei. O vi parar e virar para me encarar, com medo de ser uma armadilha, não parei de correr até me aproximar o suficiente e ele gritou. “Já chega de correr!”. Seu grito invadiu toda a mata, acordou as feras que lá habitavam e do mesmo jeito me violou.
Desci as escadas da faculdade assombrada. Saíra de lá rastejando, tossindo, passando mal, enjoada. Entrei num beco e lá o vi, para a minha surpresa e ele repetiu “Já chega de correr”, antes que terminasse a frase implorei para que não gritasse, seria perigoso acordar os que ali ainda dormiam. Mas ele falou num tom calmo, já não estava mais sujo e me deu um riso no final.
- Você continua sendo o meu silêncio - eu disse.
- Sou seu silêncio porque faço parte de você desde que te despertei para a vida - seus olhos não saiam de mim, jamais.
- É injusto, nunca mais fui a mesma.
- Não era pra ser.
Beijou-me e eu senti o meu próprio gosto em sua boca, como se fosse a minha. Saí do beco e o vento me confortou e me levou para casa. Se eu não puder me sentir certa do jeito que eu quero, será de algum outro. Continuei andando.